A
solidariedade é a certeza da presença de alguém, tomando chuva com você, ainda
que nada ganhe com isso, só para fazer, pela conversa, o sangue continuar
circulando e prolongar sua resistência. Solidário é companheiro de chuva.
A solidariedade é o preenchimento da expectativa de que o outro
vai retribuir aqueles momentos em que você, calado ou brigando, prostrou-se na
frente daquela batalha, porque acreditava em uma causa, a mesma causa de quem
hoje com a mesma verve prostra-se ao seu lado. Solidário é companheiro de
trincheira.
A solidariedade é aquela voz inaudível de defesa no meio da
gritaria estridente de acusações. É a manifestação eloquente, ainda que
silenciosa, da presença solidificante na sustentação em meio aos fortes ventos
de tempestade criados por articulações maléficas dos que só se solidarizam para
fazer o mal, o que não é solidariedade, mas cumplicidade. Solidário é
companheiro de voz.
A solidariedade é espontânea. Vem por convicção e não por
remorso. Solidariedade que não é espontânea cessa e titubeia na volta da
primeira ameaça, recolhendo-se novamente, assustada, e indo para onde nunca
deveria saído, no recôndito da tibieza. É uma ilusória gota d’água para quem
está à morte com sede no deserto. Solidário é companheiro de sinceridade.
A solidariedade é atemporal e ubiquitária. Sua presença quando
necessária chega viajando distâncias temporais e geográficas, assinadas por
pessoas queridas distantes do presente, mas presentes no passado, distantes do
olhar, mas próximas na retina afetiva. Solidário é companheiro da vida e de
vida.
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